Desde que posso me lembrar, sempre tive vontade - e curiosidade - de morar fora. Não por aversão ao meu país, muito pelo contrário: uma das conclusões tiradas seria, provavelmente, a de que esse é o melhor lugar para se viver. Mesmo assim, entre as razões que levam alguém a deixar tudo para trás por três, seis meses, ou até um ano, estive pensando em quais seriam elas. Ora, isso vai, inevitavelmente, variar de viajante para nômade, mas elas não se restringem a apenas pegar um vôo e afastar-se.
A questão não se resume somente em mudar de rua, cidade ou país; abrange, também, um patamar mais psicológico e, por que não, antropofágico. Às vezes - e não são poucas - precisamos fugir da nossa rotina, dar um pause no nosso cotidiano, deixar algumas pessoas queridas em nosso mundo, e irmos pra outro, com outras rotinas, outros cotidianos e novas pessoas. Não que seja tudo por egoísmo, mas sim por uma necessidade de melhora no nosso hábitat natural. Contudo, para fazê-lo, é necessário muito mais do que dinheiro para comprar a passagem e se bancar.
Quem vê de fora pode achar muito simples: pensam, equivocadamente, que tudo é uma grande mar de rosas, do tamanho do Oceano Atlântico; e que são mil maravilhas, assim como as 7 do Mundo Moderno. Não. Aqueles que se vão, por quanto tempo for, precisam de muito mais coragem, determinação e vontade para enfrentar os obstáculos do mundo afora do que aqueles outros que sentem as saudades, em seu próprio país: por que isso acontece? Complicado de entender, mas simples de explicar: os que se vão têm que se adaptar a novas circunstâncias, novos costumes, novos hábitos, língua, ou seja, têm um novo mundo a fazer parte. Já os que os aguardam, não: estão em casa, com quem amam, com quem conhecem. Nada têm de novo a engolir, exceto o de sempre.
Então tá: passagem comprada, mala pronta, hospedagem agendada. O avião decola, nosso coração dispara a ponto de ultrapassar o girar das turbinas. Depois de um tempo, lá fora, começamos a pensar no que ficou acolá. Aqui, de onde saiu e pra onde vai se voltar, provavelmente. Creio ser essa a maior utilidade dessas viagens aparentemente loucas: quando se está fora da moldura em que se inseria - quando não preso - pode-se pensar em várias questões, resolver vários problemas, tomar várias decisões, fazer várias escolhas, mesmo que esteja tão longe dos lugares, pessoas e dúvidas que foram tratados.
Esse mundo é tão grande e diferente não à toa: existem tantos países, tantas pessoas, tantas culturas, justamente para que possamos usá-las de modo a melhorar as nossas próprias.
Eu quero ir embora.
terça-feira, 8 de julho de 2008
domingo, 8 de junho de 2008
Final nem tão feliz
Poucos assim o vêem, mas escrever pra si própria pode ser o melhor reflexo, e o mais fiel retrato daquilo que se sente. Sem esperar a aprovação de terceiros, ou os elogios de quartos, expressar como se é, de fato, sem nada em troca, é a melhor forma de se conhecer melhor, de ver as mudanças pelas quais passamos e o que elas causaram na gente. Venho reparado, em minhas últimas hemorragias verbais, que a dificuldade de terminar aquilo que se começa vem se fazendo presente. Não que haja um bloqueio repentino, ao concluir um texto ou uma idéia, mas há sempre o mesmo final. Como uma novela, a mensagem passada ao fim é quase sempre a mesma, no meu caso: deve-se esquecer da racionalidade, e se entregar às emoções. Refleti bastante, então... Será que essa freqüência no final seria um indício? Um sinal de que quem escreve é aquele que mais precisa seguir seu próprio conselho? Tenho quase certeza de que sim.
Quando se diz pra seguir o que falamos, mas não o que fazemos, se está pondo em prática uma das maiores dificuldades das pessoas: fazer, de fato, o que se pensa ser certo. Concluir textos pode ser fácil, mas pôr em prática aquilo que se escreve já são outros quinhentos.
Falando em finais, mudo o meu de quase sempre: em vez de ficar pensando em como acabar um texto, pensemos mais em como estamos concluindo as nossas reflexões e o bom ou mau uso delas.
Quando se diz pra seguir o que falamos, mas não o que fazemos, se está pondo em prática uma das maiores dificuldades das pessoas: fazer, de fato, o que se pensa ser certo. Concluir textos pode ser fácil, mas pôr em prática aquilo que se escreve já são outros quinhentos.
Falando em finais, mudo o meu de quase sempre: em vez de ficar pensando em como acabar um texto, pensemos mais em como estamos concluindo as nossas reflexões e o bom ou mau uso delas.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Olho Vivo
Cansei de falar do amor. Não somente do meu, mas dos nossos, afinal, tudo que se sente é, inevitavelmente, percebido pelos outros. Considero-me um perito nessa questão. Absorvo os sentires alheios como se meus fossem, sem a menor cerimônia ou receio, e é esse, provavelmente, o problema.
Quando se é munido desse verdadeiro talento e carma, ao mesmo tempo, pode se estar suscetível a verdadeiros bombardeios de sentimentos. Não só meus, mas de todos, como disse. Mas creio ser esse não um problema de fato, apenas uma condição para que se possa ser do jeito que se é, assim: sentimental.
Entretanto, ter intenso contato com os amores de outros não garante, de forma alguma, que vá se ter a mesma conduta e experiência quando se trata dos seus sentimentos. Complica a situação, pois se encontra não mais na platéia, mas no foco dos holofotes, com a corda no pescoço e com as asas do coração preparadas a voar.
Nesse caso, não há análise que resolva, nem matemática que defina. Não há outras saídas, a não ser arrancar essa corda, abrir os braços e deixar-se ir. Para que se prender a fatos e dados, afinal? O prazer que se tem quando fazemos o que a cabeça desaprova, mas o coração aplaude, vale muito mais do que qualquer conclusão sentimental que se possa obter.
Quando se é munido desse verdadeiro talento e carma, ao mesmo tempo, pode se estar suscetível a verdadeiros bombardeios de sentimentos. Não só meus, mas de todos, como disse. Mas creio ser esse não um problema de fato, apenas uma condição para que se possa ser do jeito que se é, assim: sentimental.
Entretanto, ter intenso contato com os amores de outros não garante, de forma alguma, que vá se ter a mesma conduta e experiência quando se trata dos seus sentimentos. Complica a situação, pois se encontra não mais na platéia, mas no foco dos holofotes, com a corda no pescoço e com as asas do coração preparadas a voar.
Nesse caso, não há análise que resolva, nem matemática que defina. Não há outras saídas, a não ser arrancar essa corda, abrir os braços e deixar-se ir. Para que se prender a fatos e dados, afinal? O prazer que se tem quando fazemos o que a cabeça desaprova, mas o coração aplaude, vale muito mais do que qualquer conclusão sentimental que se possa obter.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Estampado na cara
Entre tantas situações pelo mundo afora, para se ter vergonha, as pessoas a têm de estar amando, de demonstrar seus sentimentos, de serem felizes. Sentem vergonha de falar o que pensam, de ouvir o que outros dizem, de ser quem são, sem jogo de palavras ou estilos discretos e blazé montados à rua, e desmontados à frente do espelho.
Em vez de se sentirem incomodadas com um menino que tem a calçada como cama, um papelão como travesseiro e uma camisa e uma bermuda, como guarda-roupas. Não, preferem sentir-se mal com uma celulite, um cabelo crespo, ou uma unha mal feita.
Parecem crianças inocentes, por não pôr em prática a visão que desenvolveram, acerca do futuro. Lembram adolescentes imaturos, que só se importam com o que os outros acham, e nada mais lhes interessa. São, na verdade, adultos. Mesmo que não o pareçam.
Em vez de se sentirem incomodadas com um menino que tem a calçada como cama, um papelão como travesseiro e uma camisa e uma bermuda, como guarda-roupas. Não, preferem sentir-se mal com uma celulite, um cabelo crespo, ou uma unha mal feita.
Parecem crianças inocentes, por não pôr em prática a visão que desenvolveram, acerca do futuro. Lembram adolescentes imaturos, que só se importam com o que os outros acham, e nada mais lhes interessa. São, na verdade, adultos. Mesmo que não o pareçam.
Vergonha deveriam ter, sim, de ser da maneira como estão sendo. Não que assim tenham nascido, ou sido criados, mas desse jeito deixaram que se moldassem. Nesse caso, há de se admitir que o sistema tem, de fato, culpa no cartório. Mas, afinal de contas, quem criou o sistema em que se vive?
Eis a questão, tão fácil de ser respondida, mas solenemente ignorada.
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